A crise em números

Uma casa custa hoje quase o triplo do que custava há dez anos

Os salários ficaram para trás, a habitação pública quase não existe e há centenas de milhares de casas vazias. Aqui estão os números oficiais, com as fontes, para que qualquer pessoa os possa confirmar.

Oito números que explicam a crise

+180%

foi quanto subiu o preço das casas entre 2015 e 2025, a segunda maior subida da UE. Média da UE: +65%.

Eurostat, 2026

27,2%

dos inquilinos a preços de mercado gastam mais de 40% do rendimento com a casa. Média da UE: 18,6%.

Eurostat, 2025

17,79 €/m²

é a renda mediana dos novos contratos em Lisboa. A mediana nacional ultrapassou pela primeira vez os 10 €/m².

INE, 2.º trim. 2026

920 €

é o salário mínimo bruto em 2026 (cerca de 819 € líquidos). Um T2 de 70 m² em Lisboa custa cerca de 1245 € por mês.

Decreto-Lei n.º 139/2025

723 215

casas vazias, 12,1% do parque habitacional. Mais de metade, cerca de 375 mil, não estava à venda nem para arrendar.

INE, Censos 2021

≈2%

das casas são habitação pública, um dos valores mais baixos da Europa, depois de décadas de desinvestimento.

ISCTE, 2025

28,9 anos

é a idade média com que os jovens saem de casa dos pais. Média da UE: 26,2.

Eurostat, dados de 2024

1447

títulos de desocupação emitidos em 2025, mais 44% do que no ano anterior. Incluem processos iniciados em anos anteriores.

IGFEJ, via Público

Como chegámos aqui

Não há uma causa única, mas todas têm solução.

A casa passou a ser investimento

Os vistos gold e os benefícios fiscais para novos residentes atraíram capital para o imobiliário. Hoje, os compradores com domicílio fiscal no estrangeiro são cerca de 5% das compras, mas os de fora da UE pagam em média o dobro (470 mil euros, contra 234 mil de quem tem domicílio em Portugal). O Banco de Portugal considera a procura externa relevante para a evolução dos preços.

Alojamento local concentrado

Nos centros históricos de Lisboa e do Porto, prédios inteiros ficaram sem moradores e passaram a alojamento local. Em Portugal, mais 1 ponto percentual de alojamento local num concelho fez subir o preço das casas 3,7% (Franco e Santos, 2021).

Pouca habitação pública

O parque público ronda as 120 mil casas, cerca de 2% do total, contra 7% em média na OCDE. Com tão pouca habitação pública, quem tem rendimentos baixos depende só do mercado.

Constrói-se pouco

O setor da construção estima que são precisas 45 mil casas novas por ano. Na última década construíram-se cerca de 15 mil por ano, e em 2025 concluíram-se cerca de 30 mil.

Salários que ficaram para trás

Entre 2015 e 2025, o preço das casas subiu 180%. No mesmo período, o salário mínimo subiu 72%, de 505 € para 870 €. Ou seja, as casas subiram duas vezes e meia mais do que o salário mínimo.

Casas vazias fora do mercado

Os Censos 2021 contaram 723 215 casas vazias. Muitas estão degradadas, mas mais de metade não estava à venda nem para arrendar, quase 90 mil delas na área metropolitana de Lisboa.

Para ver

A gentrificação em filme

O coletivo Left Hand Rotation filma a gentrificação desde muito antes de a palavra chegar aos jornais. Instalado em Lisboa desde 2011, documenta a forma como o turismo e a especulação esvaziam os bairros e, entre 2010 e 2021, levou as oficinas «Gentrificación no es un nombre de señora» a 17 cidades de 9 países. Os filmes são gratuitos.

2019 · 82 min · Lisboa

O que vai acontecer aqui?

Os movimentos que defendem o direito a morar em Lisboa, contados por quem resiste aos despejos. Feito com a Stop Despejos e a Habita!.

2016 · 43 min · Lisboa

Terramotourism

Em 1755, um terramoto destruiu Lisboa. Hoje, a cidade treme com um sismo turístico que empurra quem lá vive para fora do centro.

2017 · 41 min · Lisboa

Alfama é Marcha

A preparação da marcha popular de Alfama e a pergunta que fica: como evitar que a vida do bairro se torne folclore para turistas?

2019 · 21 min · Lisboa

Janela

Lisboa vista de uma janela: lá fora, a cidade renova-se à pressa para a chegada dos visitantes.

2017 · 8 min · Porto

Bonfim. Ilhas do tesouro

Numa oficina com coletivos do bairro, os participantes mapearam os conflitos da habitação no Bonfim e espalharam cartazes pelas ruas.

2023 · 3 min · Ponta Delgada

Bye and thanks for nothing

Uma ação no porto de Ponta Delgada contra a chegada maciça de navios de cruzeiro a São Miguel, com o coletivo Habitat Açores.

2013 · 21 min

Ficción inmobiliaria

Excertos de filmes de ficção em que a especulação imobiliária e a gentrificação fazem parte da história. Há também uma segunda parte (abre num novo separador).

2026 · 66 min · Lisboa

O nosso último filme sobre Lisboa

Da Expo 98 aos protestos mais recentes, incluindo a demolição do Bairro da Jamaica, no Seixal. Estreou no DocLisboa a 22 de outubro de 2026 e vai ficar disponível gratuitamente no site do coletivo.

Arquivo coletivo

Museo de los Desplazados

Um arquivo aberto e colaborativo sobre a gentrificação e as pessoas que ela expulsa, feito a partir das oficinas do coletivo.

2010–2021 · 17 cidades

Gentrificación no es un nombre de señora

Oficinas sobre a gentrificação e o papel da cultura nesse processo, em 17 cidades de 9 países, entre elas Lisboa e o Porto.

Os vídeos estão no Vimeo e só são carregados quando clicas em «Ver o filme». A partir daí, o Vimeo pode guardar cookies no teu navegador.

Solidariedade

Causas que apoiamos

Defender a casa é também defender o lugar onde se vive. Estas são causas que a Cultura no Muro apoia e que te convidamos a conhecer.

Caminho de terra entre pinheiros na Quinta dos Ingleses, em Carcavelos.
Foto: Bisnagajanota, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons. Convertida a preto e branco.

Um caso perto de nós

Quinta dos Ingleses: casas de luxo onde faltam casas para viver

Em Carcavelos, à frente da praia, a Quinta dos Ingleses tem cerca de 52 hectares de espaço verde, 35 dos quais de pinhal. O nome vem dos ingleses da companhia do cabo submarino do telégrafo, que ali chegou em 1870. Quem a defende chama-lhe «o último pulmão verde da Linha».

O plano aprovado pela Câmara de Cascais permite construir ali cerca de 850 apartamentos, em prédios com até sete pisos, além de hotelaria e comércio. O terreno pertence à construtora Alves Ribeiro. Não são casas para quem cá trabalha: a imprensa descreve-as como apartamentos de luxo.

Em abril de 2024, cerca de 40 pessoas viviam na quinta em tendas e autocaravanas, por não conseguirem pagar uma renda. Tiveram de sair para as obras começarem, e o presidente da Câmara recusou-lhes habitação social.

O SOS Quinta dos Ingleses é um movimento cívico e apartidário, associação desde 2021 e organização não governamental de ambiente desde 2024. Defende o pinhal, a praia e a memória do lugar e, em outubro de 2023, levou a Câmara a tribunal, por considerar que o projeto viola as regras de proteção da orla costeira.

Igreja de Santa Maria, em pedra, na aldeia de Covas do Barroso.
Foto: GFreihalter, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons. Convertida a preto e branco.

Boticas, Trás-os-Montes

Covas do Barroso: a aldeia que não quer uma mina

Em Covas do Barroso, no concelho de Boticas, a empresa britânica Savannah Resources quer abrir quatro minas de lítio a céu aberto, com cerca de 100 metros de profundidade, além de escombreiras e instalações industriais.

O Barroso é o único Património Agrícola Mundial da FAO em Portugal, reconhecido em 2018 por uma agricultura e uma pastorícia que há séculos moldam a paisagem, com terras comunitárias, os baldios, geridas em conjunto pelos vizinhos.

A associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso e os compartes dos baldios defendem a terra, a água e o modo de vida da aldeia. O Governo autorizou a empresa a ocupar terrenos privados e comunitários sem o acordo dos donos, e os tribunais já suspenderam os trabalhos mais do que uma vez, a última em junho de 2026.

Ninguém deve perder a sua terra ou a sua casa sem o seu acordo, sem uma compensação justa e sem uma avaliação séria dos impactos.

Faz-te ouvir

Planos de urbanização, grandes empreendimentos, minas e outros projetos que mudam o território passam por consulta pública antes de avançar. No portal Participa vês as consultas abertas e podes deixar a tua opinião. Quanto mais pessoas participarem, mais difícil é ignorá-las.

Cronologia

O que mudou na lei

2006

Novo Regime do Arrendamento Urbano

A Lei n.º 6/2006 (NRAU) define as regras atuais sobre a duração dos contratos, a atualização das rendas e o fim do arrendamento.

2009

Residentes não habituais

O Decreto-Lei n.º 249/2009 dá dez anos de impostos reduzidos a quem passa a viver em Portugal. O regime aumenta a pressão sobre os preços nas grandes cidades e fecha a novas adesões em 2024.

2012

Vistos gold

A Lei n.º 29/2012 dá autorização de residência a quem compre imóveis a partir de 500 mil euros. Até 2023, a grande maioria destes vistos é concedida pela compra de casas.

2012

A «lei das rendas»

A Lei n.º 31/2012 facilita a atualização das rendas antigas e os despejos, e cria um procedimento rápido de despejo. É a lei cuja revogação as acampadas exigem.

2014

Alojamento local

O Decreto-Lei n.º 128/2014 cria o regime do alojamento local para turistas. Prédios inteiros de Lisboa e do Porto saem do mercado da habitação.

2019

SIGI

O Decreto-Lei n.º 19/2019 cria as sociedades de investimento imobiliário cotadas em bolsa, que compram casas para arrendar com o regime fiscal dos fundos de investimento.

2019

Proteção de inquilinos e Lei de Bases

As leis n.º 12/2019 e n.º 13/2019 proíbem o assédio no arrendamento e dão mais estabilidade aos contratos. A Lei n.º 83/2019 reconhece a habitação como direito fundamental. Muito do que prevê continua por cumprir.

2023

Pacote «Mais Habitação»

A Lei n.º 56/2023 limita a 2% o aumento da renda nos novos contratos de casas já arrendadas, acaba com os vistos gold para imobiliário e mexe no alojamento local e nas casas devolutas.

2024

Nova lei dos solos

O Decreto-Lei n.º 117/2024 permite transformar solo rústico em urbano para construir habitação, no âmbito do programa «Construir Portugal».

2026

Despejos mais rápidos: ainda não é lei

A Proposta de Lei n.º 103/XVII quer acabar com o limite de 2% nos novos contratos e acelerar os despejos por falta de pagamento. Foi aprovada na generalidade a 30 de setembro, com os votos a favor do PSD, da IL e do CDS e a abstenção do Chega, e está agora em discussão na especialidade. Ainda vamos a tempo de a travar.

Fontes

Dados revistos em outubro de 2026. Os estudos científicos que sustentam cada proposta estão na página O que exigimos. Se encontrares algum erro ou tiveres dados mais recentes, avisa-nos.

A habitação é um direito.
Vamos fazê-⁠lo cumprir.

Junta-te a quem já se está a organizar em prédios, bairros e locais de trabalho por todo o país.